Por que muitas empresas não conseguem transformar erros em aprendizado utilizável?

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Alfredo Moreira Filho

Toda empresa faz reunião depois do problema grave. O empresário Alfredo Moreira Filho destaca que poucas mudam alguma coisa por causa dela. A ata registra o que deu errado, alguém assume um compromisso genérico e, meses depois, o mesmo defeito reaparece com outra roupa.

Quem trabalhou com lavoura reconhece a lógica do esporte nesse ponto. Alfredo construiu carreira num ambiente em que o resultado só aparece no fim do ciclo e o ajuste precisa ser decidido bem antes disso. Safra, jogo e trimestre partilham a mesma exigência: transformar erro em informação utilizável enquanto ainda há tempo de agir. O percurso tem etapas, e nenhuma delas começa pela pergunta sobre quem foi o culpado.

O erro só vira informação quando alguém registra

No vôlei de alto rendimento, cada recepção recebe uma classificação, e o erro cometido sem interferência do adversário é contado à parte. O técnico não precisa lembrar da partida. Ele abre a planilha e vê que a equipe perdeu doze pontos no saque contra quatro do adversário. A conversa muda de natureza porque o dado chegou antes da opinião.

Sem registro, a empresa se lembra apenas do caso mais recente e do mais barulhento. O primeiro passo, portanto, é banal e raramente feito: categorizar as falhas por tipo antes de discuti-las. Reclamações por atraso, por defeito e por atendimento produzem médias parecidas de insatisfação, mas exigem correções que não têm nada em comum.

Separar o erro de execução do erro de escolha

Dois pontos perdidos parecem idênticos no placar. Um atacante erra ao bater contra bloqueio triplo, depois de receber uma bola mal levantada. Outro erra sozinho, com a quadra aberta. O primeiro caso é problema de escolha e envolve outra pessoa. O segundo é execução, e treino resolve.

A empresa vive a mesma ambiguidade. A proposta perdida por preço alto pede revisão de custo. A proposta foi perdida porque o contrato demorou onze dias no jurídico; pede revisão de processo. Quando ambas entram na planilha como negócio perdido, o ajuste vai para o lugar errado. Antes dos livros de memórias e de gestão, Alfredo Moreira assinou obras técnicas sobre cacau e guaraná no Amazonas, gênero que exige, antes de tudo, separar o que falhou de por que falhou.

Um ajuste de cada vez, com prazo para julgar

O experimento agronômico tem uma regra que a gestão costuma ignorar: muda-se uma variável e mantém-se a testemunha, a área que segue como estava. Sem comparação, a safra melhor pode ser mérito do novo adubo ou apenas de um ano mais chuvoso. Quem altera adubação, espaçamento e cultivar na mesma safra colhe um número, não um aprendizado.

Empresas fazem o oposto. Diante de um trimestre ruim, trocam a meta, o discurso de venda, o material e, às vezes, o gerente. Alfredo Moreira aponta que, se o trimestre seguinte melhorar, ninguém sabe por quê, e o que funcionou não pode ser repetido. Vale escolher um ajuste, definir em quanto tempo ele será julgado e combinar qual número vai dizer se deu certo. 

Evolução é o que sobra de muitos ciclos curtos

A vantagem competitiva raramente vem de uma decisão brilhante. Ela vem da frequência. Uma equipe que revê o próprio desempenho após cada partida acumula dezenas de pequenas correções ao longo de uma temporada. A empresa que revê o desempenho a cada semestre acumula duas, e ainda por cima com memória fraca sobre o que de fato aconteceu.

Encurtar a distância entre o erro e o ajuste vale mais do que acertar mais vezes. É por isso que times medianos com rotina de revisão ultrapassam elencos caros sem essa disciplina, e é por isso que empresas discretas passam à frente de concorrentes maiores. Evoluir não é errar menos. É gastar menos tempo entre errar e corrigir.

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