Modelo interno usou 10 mil agentes trabalhando em paralelo para chegar à resposta em menos de quatro dias
A OpenAI anunciou nesta terça-feira, 8 de setembro, que um modelo interno ainda não lançado ao público conseguiu produzir uma solução verificada matematicamente para o problema de Navier-Stokes, um dos sete Problemas do Milênio listados pelo Clay Mathematics Institute em 2000. A publicação apresentou a solução para o problema de existência e suavidade de Navier-Stokes, um conjunto de questões matemáticas que carregam premiação de 1 milhão de dólares cada. Até então, apenas um dos sete enigmas havia sido resolvido oficialmente. Quartz
O que diz a equação que intrigava matemáticos há décadas
O problema de Navier-Stokes, sem solução havia cerca de 90 anos, questiona se o movimento suave de um fluido tridimensional pode se desestabilizar sob as equações que regem o comportamento de líquidos e gases. O modelo da OpenAI descobriu que isso pode, sim, acontecer, descrevendo uma configuração na qual um vórtice se contrai e gira cada vez mais rápido, fenômeno que os matemáticos chamam de explosão em tempo finito, enquanto a energia do fluido permanece limitada durante todo o processo. Quartz
Segundo a companhia, o trabalho não foi conduzido por matemáticos humanos, mas por um sistema interno significativamente mais avançado que o GPT-6 Astra, já disponível publicamente. A tentativa começou em 1º de setembro, depois que pesquisadores da OpenAI ouviram rumores de que dois Problemas do Milênio já haviam sido resolvidos por matemáticos externos. Axios
Como o modelo chegou à resposta em menos de quatro dias
De acordo com informações repassadas ao Wall Street Journal, o sistema usou até 10 mil agentes de inteligência artificial trabalhando em paralelo por aproximadamente 88 horas, com um custo computacional que chegou à casa dos milhões de dólares. A empresa divulgou um documento de 165 páginas contendo a prova completa, além de uma formalização no Lean, linguagem de programação usada para verificar passo a passo a validade lógica de argumentos matemáticos.
Apesar da magnitude do anúncio, a OpenAI afirmou que não pretende reivindicar o prêmio de 1 milhão de dólares oferecido pelo Clay Mathematics Institute. Até agora, apenas o Poincaré, teorema sobre a forma de espaços tridimensionais, havia sido oficialmente solucionado entre os sete problemas listados em 2000. CNN
Disputa por crédito ofusca o anúncio científico
O resultado, no entanto, veio acompanhado de controvérsia. Antes da publicação oficial, pesquisadores rivais já questionavam a versão da OpenAI sobre como o trabalho havia se desenrolado. Um dos nomes envolvidos é o professor da Universidade de Nova York Tristan Buckmaster, que, junto ao pesquisador Levent Alpöge (funcionário da Anthropic), já vinha avançando em partes cruciais do mesmo problema antes do anúncio da OpenAI.
A empresa afirma que o trabalho começou em 1º de setembro após ouvir um boato, que depois relacionou aos dois pesquisadores, e que só soube dos resultados dos colegas pela divulgação pública, sem ter usado dados específicos de usuários. Ainda assim, a companhia reconhece que seu modelo resolveu o problema completo usando um método semelhante ao empregado pela dupla de pesquisadores, o que abriu espaço para acusações de apropriação indevida de ideias em desenvolvimento. VGTimes
Um alerta para a comunidade científica
O episódio expõe uma tensão que deve se tornar cada vez mais comum à medida que empresas de inteligência artificial avançam sobre a pesquisa acadêmica: a confiança de que cientistas podem usar ferramentas de laboratórios de ponta para trabalhar em descobertas ainda não publicadas, sem risco de terem seu trabalho antecipado por um sistema automatizado. A prova da OpenAI ainda não passou pela revisão formal da comunidade matemática internacional, o que significa que, tecnicamente, é prematuro declarar o problema definitivamente encerrado.
Parte de uma sequência de resultados em matemática
O caso não é isolado. Já no mês passado, a OpenAI havia anunciado que uma versão interna do seu modelo GPT-6 Astra, já disponível ao público, havia sido usada para alcançar avanços em dez problemas de longa data na matemática e na ciência da computação teórica, formalizando cada argumento no Lean com apenas cerca de 2.000 dólares em créditos de API. A repetição de resultados de alto impacto em curto espaço de tempo tem alimentado tanto entusiasmo quanto desconfiança dentro da comunidade científica. Neowin
Impacto para o público brasileiro interessado em IA
Para quem acompanha o avanço da inteligência artificial generativa, o episódio ilustra dois movimentos simultâneos: de um lado, ganhos concretos de capacidade em tarefas de raciocínio complexo; de outro, a fragilidade das normas de atribuição de crédito quando sistemas automatizados entram em disputas que, até pouco tempo, eram exclusivamente humanas. Especialistas em ética de pesquisa devem acompanhar de perto os desdobramentos, já que casos semelhantes tendem a se repetir conforme mais laboratórios aplicam IA a problemas científicos não resolvidos.
O que vem a seguir
A prova segue agora para escrutínio de matemáticos independentes ao redor do mundo, processo que pode levar meses. Enquanto isso, a polêmica sobre a origem exata do avanço deve continuar movimentando o debate sobre como laboratórios de IA devem lidar com pesquisas em andamento de terceiros, especialmente quando utilizam ferramentas às quais esses mesmos pesquisadores têm acesso.
Fontes: