IA já reduz chances de emprego de jovens no Brasil, aponta estudo da FGV

Diego Velázquez
Diego Velázquez

Pesquisa do FGV Ibre mostra que jovens de 18 a 29 anos em profissões expostas à inteligência artificial têm menos chance de emprego e renda mais baixa.

A inteligência artificial generativa deixou de ser apenas uma tendência discutida em relatórios de mercado e passou a aparecer em números concretos sobre o emprego no Brasil. Um estudo do pesquisador Daniel Duque, do FGV Ibre, mostrou que trabalhadores de 18 a 29 anos em profissões mais expostas à tecnologia já enfrentam menos chances de estarem empregados, além de renda mais baixa, quando comparados a um cenário anterior à popularização do ChatGPT. A pesquisa usou dados da Pnad Contínua, do IBGE, e comparou perfis semelhantes de trabalhadores entre 2022 e 2025.

O levantamento se soma a outro estudo, também do FGV Ibre, que mapeou quantos brasileiros estão em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa. Juntos, os dados ajudam a responder uma pergunta que tem ganhado força entre quem está começando a carreira ou pensando em trocar de área: a inteligência artificial já está, de fato, tirando vagas no mercado de trabalho brasileiro, ou o impacto ainda é mais teórico do que real? A resposta, segundo os pesquisadores, está em um meio-termo que já produz efeitos mensuráveis, especialmente entre os mais jovens.

O que o estudo da FGV descobriu sobre jovens e IA

Para chegar aos resultados, Daniel Duque comparou grupos de trabalhadores com perfis parecidos em dois momentos distintos: 2022, pouco antes do lançamento do ChatGPT, e 2025, já com a tecnologia amplamente disseminada. A diferença entre os grupos estava na exposição das ocupações à inteligência artificial, sendo que parte deles atuava em áreas mais afetadas, como serviços de informação e financeiros, enquanto outra parte estava em setores menos impactados pela tecnologia.

O resultado mostrou que jovens de 18 a 29 anos mais expostos a profissões nas quais a IA tem maior presença apresentaram uma chance de emprego quase 5% menor do que teriam em um cenário sem essa exposição tecnológica. A renda desse grupo também ficou cerca de 7% menor. Segundo o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, a inteligência artificial tem avançado principalmente sobre tarefas repetitivas, típicas de posições iniciais de carreira, o que explica por que o impacto recai com mais força sobre quem está chegando ao mercado de trabalho. Para Duque, essa dinâmica preocupa porque os jovens já costumam ingressar na carreira com salários menores e menos experiência acumulada, o que pode tornar os efeitos da automação ainda mais difíceis de reverter ao longo do tempo.

Quantos trabalhadores estão expostos à inteligência artificial no Brasil

Além do estudo sobre emprego e renda, outro levantamento do FGV Ibre, conduzido pelos pesquisadores Fernando de Holanda Barbosa Filho, Janaína Feijó e Paulo Peruchetti, mapeou a exposição das ocupações brasileiras à IA generativa com base em metodologia da Organização Internacional do Trabalho. O resultado mostrou que, no terceiro trimestre de 2025, quase 30 milhões de trabalhadores no Brasil estavam em ocupações com algum grau de exposição à tecnologia, o equivalente a 29,6% da população ocupada no país.

Desse total, cerca de 5,2 milhões de pessoas estavam no nível mais elevado de exposição à IA generativa, concentrados principalmente entre os mais jovens, os mais escolarizados, moradores da região Sudeste e profissionais do setor de serviços, com destaque para as áreas de informação, comunicação e serviços financeiros. Os pesquisadores reforçam que o cenário não deve ser interpretado como uma simples troca entre humanos e máquinas, mas como uma reconfiguração do conteúdo do trabalho, em que tarefas específicas são absorvidas pela tecnologia sem necessariamente eliminar ocupações inteiras. Ainda assim, o volume de trabalhadores em situação de alta exposição mostra que o tema já deixou de ser um debate apenas futuro para fazer parte da realidade do mercado brasileiro.

Por que os trabalhadores mais velhos sentem menos o impacto da IA

Um dos pontos levantados pelo estudo ajuda a explicar por que o efeito da inteligência artificial não é igual para todas as faixas etárias. Segundo Daniel Duque, em entrevista à Folha de S.Paulo, o trabalhador mais experiente costuma ocupar funções ligadas à tomada de decisão, o que ainda não é um ponto forte da IA generativa atual. Já os trabalhadores que ocupam posições de entrada tendem a executar tarefas mais padronizadas e burocráticas, justamente o tipo de atividade em que a automação consegue atuar com mais eficiência e menor custo.

Essa diferença ajuda a entender por que o debate sobre IA e emprego não pode ser tratado de forma genérica. Setores como informação, comunicação e serviços financeiros aparecem com destaque entre os mais expostos, enquanto áreas que dependem fortemente de interação humana e julgamento complexo tendem a sentir menos pressão imediata. Para empresas e gestores, esse cenário sugere que a integração da inteligência artificial aos processos de trabalho funciona melhor quando combinada com requalificação das equipes e redesenho de funções, em vez de uma simples substituição de pessoas por sistemas automatizados.

Os dados do FGV Ibre indicam que o Brasil está em um momento de transição em que os efeitos da inteligência artificial sobre o emprego já podem ser medidos, mas ainda estão concentrados em grupos específicos, sobretudo os mais jovens. Isso não significa que a tecnologia vá substituir o trabalho humano de forma ampla a curto prazo, mas reforça a importância de acompanhar como diferentes setores e faixas etárias reagem a essa transformação. Para quem está iniciando a carreira, especialistas recomendam atenção ao desenvolvimento de habilidades que complementem o uso da IA, como pensamento crítico e capacidade de tomada de decisão, áreas em que a tecnologia ainda apresenta limitações relevantes.

Fontes consultadas:

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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