Xiaomi lança MiMo-V2.6 e passa a liderar o ranking de modelos de IA abertos

Lara Montavia
Lara Montavia

Nova família de modelos da fabricante chinesa processa texto, imagem, vídeo e áudio, chega com licença MIT e preço mantido, e alcança a maior nota entre os modelos de pesos abertos avaliados pela Artificial Analysis

A Xiaomi, mais conhecida no Brasil pelos smartphones, colocou seu nome no topo de uma das disputas mais acirradas da inteligência artificial. A empresa anunciou e liberou como código aberto a série MiMo-V2.6, com dois modelos nativamente omnimodais: o novo carro-chefe MiMo-V2.6-Pro e uma variante menor e mais eficiente, a Flash. O anúncio foi publicado pela conta oficial da Xiaomi MiMo em 21 de setembro, e a imprensa chinesa registrou o lançamento na manhã de 22 de setembro, no horário local da China.

O que chamou a atenção do mercado foi o desempenho. O MiMo-V2.6-Pro estreou como o modelo de pesos abertos com melhor resultado no Intelligence Index da Artificial Analysis, empresa independente de avaliação, com 46 pontos. Para desenvolvedores e empresas, isso significa acesso a um sistema de alto nível que pode ser baixado, adaptado e executado em infraestrutura própria, sem depender exclusivamente das grandes plataformas fechadas.

O que é o MiMo-V2.6 e o que ele consegue fazer

A família chega com arquiteturas de escalas bem diferentes. O MiMo-V2.6-Pro é um modelo do tipo mistura de especialistas com 1,02 trilhão de parâmetros, dos quais 42 bilhões ficam ativos a cada tarefa, enquanto o Flash tem 309 bilhões, com 15 bilhões ativos. Essa estrutura permite que o sistema acione apenas partes especializadas da rede para cada pedido, o que reduz o custo de processamento sem abrir mão da capacidade total.

O termo “omnimodal” resume a principal característica técnica da série. Segundo a Xiaomi, Pro e Flash aceitam texto, imagem, vídeo e áudio na mesma família de modelos, com janelas de contexto de 1 milhão de tokens. Na prática, o modelo consegue analisar documentos extensos, vídeos e gravações de voz dentro de uma mesma conversa, algo útil para tarefas longas e complexas.

Além dos dois modelos principais, a empresa lançou uma terceira opção voltada à velocidade. A variante Pro-UltraSpeed entrega respostas até 20 vezes mais rápidas que o Pro, com a mesma qualidade, pensada para situações em que o tempo de geração é decisivo. De acordo com a companhia, os modelos foram desenhados principalmente para programação de longa duração, uso de ferramentas, operação de computadores e agentes multimodais.

Onde o modelo se posiciona na disputa global

A nota de 46 pontos coloca o modelo à frente de concorrentes diretos. A Xiaomi afirma que o resultado supera o Kimi K3 e o Qwen3.8 Max, o que faz do MiMo-V2.6-Pro o modelo aberto mais bem avaliado no momento. A comparação também favorece a empresa diante de outros nomes chineses: o novo modelo ficou acima do DeepSeek V4.1 Flash, com 39 pontos, e do DeepSeek V4.1 Pro, com 36.

O resultado incomoda até sistemas proprietários. Pela metodologia mais recente da Artificial Analysis, o carro-chefe da Xiaomi aparece à frente do Grok 4.6, da xAI, com 44 pontos, e do Gemini 3.8 Flash, do Google, com 41, além de empatar com o Grok 4.7, lançado no mesmo dia. A evolução em relação à geração anterior também é expressiva: cinco meses atrás, o MiMo-V2.5-Pro havia estreado com 26 pontos no mesmo índice.

Ainda assim, a liderança tem limites claros. O modelo ocupa o primeiro lugar entre os 114 modelos de pesos abertos acompanhados pelo índice, mas fica sete pontos atrás do Claude Fable 5.1 e do GPT-6 Astra. Nos testes de agentes divulgados pela própria Xiaomi, o desempenho se aproxima do Claude Opus 5 e do GPT-5.6 Sol, porém fica claramente atrás deles nas tarefas mais difíceis de terminal e de exploração de vulnerabilidades.

Treinamento feito em público e código aberto

O lançamento também se diferencia pela transparência no processo de desenvolvimento. O treinamento por reforço que deu origem aos modelos foi realizado publicamente ao longo de seis dias, e a empresa divulgou, junto com os pesos, o relatório técnico, mais de 7 mil ambientes de aprendizado por reforço e o framework de treinamento, todos sob licença MIT. Essa escolha permite que pesquisadores repliquem e auditem partes do trabalho.

Os números do processo ajudam a entender a escala do projeto. Os modelos foram treinados com 750 mil trajetórias de aprendizado por reforço em programação, visão e outras tarefas, e o treinamento levou menos de seis dias, com custos públicos estimados em cerca de US$ 850 mil para o Flash e US$ 2,62 milhões para o Pro. Segundo a Xiaomi, o foco foi escalar o aprendizado por reforço em tarefas complexas e verificáveis.

A licença aberta muda a forma como o modelo pode ser usado. Desenvolvedores independentes e empresas podem baixar o sistema gratuitamente no Hugging Face, personalizá-lo, executá-lo em hardware próprio ou alugado e levá-lo a ambientes de produção sem pagar nada à Xiaomi. Para organizações com dados sensíveis, rodar o modelo localmente é uma alternativa ao envio de informações para servidores de terceiros.

Preços, acesso e aplicações práticas

Para quem prefere usar a infraestrutura da própria Xiaomi, a empresa manteve os valores da geração anterior. O Flash custa US$ 0,14 por milhão de tokens de entrada e US$ 0,28 por milhão de saída, enquanto o Pro sai por US$ 0,435 e US$ 0,87, respectivamente; a versão UltraSpeed custa dez vezes mais. Os modelos estão disponíveis no AI Studio, nos aplicativos MiMo, na API da empresa e no OpenRouter.

As demonstrações divulgadas indicam o tipo de uso que a Xiaomi quer estimular. A companhia mostrou o modelo coordenando vários agentes para construir um jogo 3D de mundo aberto a partir de imagens, vídeos ou texto e auxiliando especialistas no desenho de materiais capazes de capturar poluentes PFAS, com revisão de literatura, formulação de hipóteses e simulações. Outras demonstrações incluem a criação de objetos e cenas no Blender, a operação de softwares de desktop e o controle de um braço robótico simulado por meio de retorno visual.

Há, porém, um ponto de atenção para empresas. O uso das APIs da Xiaomi pode ser mais delicado para organizações com restrições a servidores baseados na China, embora a empresa ofereça algumas das tarifas mais baixas por milhão de tokens. Nesses casos, a possibilidade de baixar e hospedar o modelo por conta própria tende a pesar na decisão, e é justamente essa combinação de desempenho, preço e abertura que coloca a Xiaomi como um novo concorrente relevante no mercado de IA.

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