Reciclagem no Brasil: por que um mercado bilionário ainda opera muito abaixo do seu potencial?

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Marcello José Abbud

Marcello José Abbud, especialista em soluções ambientais e diretor da Ecodust Ambiental, acompanha uma contradição persistente no setor de resíduos sólidos: o mercado de reciclagem movimenta bilhões de reais por ano, tem demanda crescente da indústria por matéria-prima secundária e conta com força de trabalho informal consolidada, mas segue operando com eficiência muito abaixo do possível. O Brasil recicla menos de 4% dos resíduos sólidos que gera, índice que contrasta com os 30% a 50% registrados em países europeus com economias comparáveis.

Essa lacuna não existe por falta de material disponível. Isso porque o país gera volume mais do que suficiente para alimentar uma indústria recicladora robusta. Contudo, o problema está na estrutura da cadeia, nos incentivos econômicos distorcidos e na ausência de infraestrutura que conecte de forma eficiente quem gera o resíduo a quem pode transformá-lo em produto novamente.

Por que a matéria-prima secundária ainda perde para a virgem?

Um dos principais obstáculos à expansão da reciclagem no Brasil é a competição desigual entre material reciclado e matéria-prima virgem. Marcello José Abbud esclarece que os insumos primários, como plástico petroquímico, papel de fibra longa e alumínio primário, frequentemente chegam ao mercado a preços que tornam o material reciclado menos atrativo para as indústrias, especialmente quando os custos de coleta, triagem e beneficiamento do reciclado são integralmente repassados à cadeia.

Essa distorção tem origem em subsídios diretos e indiretos à extração de recursos naturais, que não são equivalentemente aplicados à cadeia de reciclagem. Países que avançaram na reciclagem industrial corrigiram essa assimetria por meio de políticas de conteúdo reciclado obrigatório em determinados produtos, taxação sobre o uso de matéria-prima virgem e compras governamentais que priorizam materiais com componente reciclado. O Brasil ainda não implementou nenhum desses mecanismos de forma sistemática.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

O que trava a cadeia entre o catador e a indústria?

A cadeia de reciclagem brasileira é sustentada em grande parte por cerca de 600 mil catadores que trabalham sem equipamentos adequados, sem proteção social e sem acesso a mercados que paguem preços justos. Entre eles e a indústria existe uma cadeia de intermediários que concentra a maior parte da margem econômica gerada pelo processo. Marcello José Abbud e a Ecodust Ambiental reconhecem essa fragilidade como um dos principais gargalos para a expansão do mercado de reciclagem no país.

Quais materiais têm mercado consolidado e quais ainda enfrentam barreiras?

O alumínio é o caso de maior sucesso da reciclagem brasileira: o país recicla mais de 90% das latas de alumínio produzidas, índice que coloca o Brasil entre os líderes mundiais nesse segmento. O resultado não é coincidência. O alumínio secundário custa significativamente menos para produzir do que o primário, o que cria incentivo econômico real para que a indústria invista na cadeia de coleta e reciclagem.

Conforme explica Marcello José Abbud, o plástico apresenta o cenário oposto. Com dezenas de tipos de polímeros diferentes, cada um com mercado e processo de reciclagem distintos, e com preços frequentemente pressionados pelo petróleo barato, a reciclagem de plástico no Brasil ainda é fragmentada e ineficiente. Apenas alguns tipos, como o PET de garrafas e o PEAD de embalagens, têm cadeias minimamente estruturadas. O restante vai majoritariamente para aterros ou para o ambiente, onde persiste por séculos.

O que falta para o setor decolar de verdade?

Marcello José Abbud identifica três condições necessárias para que o mercado opere próximo ao seu potencial real: infraestrutura de triagem distribuída pelo território nacional, correção das distorções de preço que tornam a matéria-prima virgem artificialmente mais barata e formalização da cadeia de catadores, que já realiza parte essencial do trabalho sem receber remuneração e reconhecimento correspondentes. A combinação dessas três condições, aplicada com consistência ao longo de uma década, é o que diferencia os países que transformaram reciclagem em indústria dos que ainda tratam o tema como política ambiental secundária.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

Compartilhe este artigo