Tiago Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, acompanha um conjunto de transformações que devem redefinir a estrutura competitiva do mercado funerário brasileiro nos próximos anos, combinando entrada de capital institucional, consolidação acelerada de empresas familiares e o surgimento de startups voltadas ao chamado setor de death care, ainda pouco conhecido pelo público brasileiro, mas que já desperta interesse crescente de investidores.
O mercado brasileiro de serviços ligados ao fim da vida, que reúne funerárias, cemitérios, crematórios e administradoras de planos, fatura atualmente cerca de R$ 13 bilhões por ano, segundo levantamento da Zurik Advisors para o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep). Esse volume, embora relevante, ainda está distante do mercado americano, que deve faturar cerca de US$ 42 bilhões até 2027, segundo estimativas internacionais, o que sugere espaço significativo de crescimento para o segmento brasileiro nas próximas décadas.
A pergunta que orienta o debate sobre o futuro do setor é estratégica: quais forças vão determinar quais empresas crescem e quais ficam pelo caminho em um mercado que se prepara para um ciclo de consolidação inédito?
Crescimento do mercado de death care atrai investidores em busca de receita recorrente
Fundos de private equity e gestoras especializadas começam a mapear de forma mais sistemática o mercado funerário brasileiro, atraídos por uma combinação pouco comum em outros setores: receita recorrente, demanda estrutural crescente e baixo nível de consolidação. Com mais de 11 mil empresas atuando no segmento, e a maior parte com perfil familiar, o mercado apresenta características clássicas de um setor pronto para movimentos de fusão e aquisição.
Como pontua Tiago Schietti, esse tipo de cenário costuma atrair capital institucional justamente pela oportunidade de ganhos de escala, eficiência operacional e padronização de processos que empresas isoladas dificilmente conseguem alcançar sozinhas.
Esse interesse crescente também é impulsionado pela natureza essencial do serviço prestado, característica que historicamente atrai investidores em busca de negócios resilientes a ciclos econômicos adversos. Diferente de setores mais sensíveis a oscilações de consumo discricionário, a demanda por serviços funerários mantém um piso estrutural relativamente estável, independentemente do cenário macroeconômico, o que reforça a tese de investimento para fundos que buscam diversificar portfólios com ativos de menor correlação às flutuações tradicionais do mercado.
Grupos consolidadores aceleram aquisições regionais
Grupos que já iniciaram processos de consolidação no setor têm ampliado sua presença geográfica por meio da aquisição de empresas familiares regionais, em um movimento que lembra processos já vividos em outros segmentos de serviços essenciais no Brasil. Essa estratégia permite ganhar escala rapidamente, aproveitando a base de clientes e o conhecimento local das empresas adquiridas.
Sob o entendimento de especialistas vinculados ao setor, essa onda de consolidação deve se intensificar nos próximos anos, com players de diferentes regiões do país buscando ampliar sua participação de mercado antes que a concorrência por ativos relevantes se torne mais acirrada.

Esse movimento tende a ser mais intenso em regiões onde a presença de grandes grupos ainda é baixa, criando espaço para que consolidadores regionais ganhem relevância antes da chegada de players nacionais maiores.
O que impulsiona o interesse dos investidores nas startups de death tech no Brasil?
Startups voltadas a soluções tecnológicas para o setor funerário, conhecidas internacionalmente como death techs, começam a surgir no Brasil, oferecendo desde plataformas de planejamento funerário digital até ferramentas de gestão de memoriais online. Esse tipo de empresa, ainda incipiente no país, já desperta interesse de investidores que acompanham movimentos semelhantes em mercados mais maduros.
Na concepção de empresários do setor cemiterial e funerário, como Tiago Schietti o surgimento dessas startups tende a acelerar a digitalização de um mercado que, historicamente, investiu pouco em tecnologia, criando pressão competitiva sobre empresas tradicionais que ainda não incorporaram ferramentas digitais à sua operação.
Como as flutuações econômicas influenciam a necessidade de diversificação nas empresas do segmento funerário?
Empresas do setor têm buscado diversificar suas fontes de receita, ampliando a oferta de serviços complementares, como planos de assistência à saúde, benefícios em vida e produtos personalizados de memorialização. Essa diversificação reduz a dependência exclusiva de receita ligada estritamente ao momento do óbito, tornando o modelo de negócio mais resiliente a flutuações econômicas.
Esse movimento de diversificação, segundo a avaliação de especialistas relacionados ao contexto de atuação do segmento funerário, tende a se intensificar conforme o mercado se sofistica e empresas buscam reduzir riscos associados a um modelo de receita historicamente concentrado em um único tipo de transação.
Tiago Schietti reforça que essa diversificação também responde a uma expectativa crescente das famílias por soluções mais completas, que acompanhem diferentes momentos da vida, e não apenas o instante do óbito.
Empresas do setor funerário podem realmente equilibrar eficiência e sensibilidade?
O conjunto de transformações que se desenha para o mercado funerário brasileiro nos próximos anos, combinando consolidação, tecnologia e diversificação de receita, sinaliza uma maturidade que o setor não possuía há poucos anos. Empresas que conseguirem se adaptar a essa nova lógica, equilibrando eficiência operacional com a sensibilidade exigida por um serviço que lida diretamente com perda e luto, tendem a se destacar em um mercado que segue crescendo de forma estrutural.
Esse processo de transformação, que atravessa a trajetória de empresários como Tiago Schietti, deve definir, ao longo da próxima década, quais negócios conseguirão se consolidar como referência em um setor que, finalmente, começa a ser encarado pelo mercado financeiro brasileiro com a seriedade estratégica que sua relevância social e econômica sempre exigiu.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez.